O Reino

Peço desculpa porque a apresentação aparece como sendo muito negativa quanto ao estado da igreja. Como disse, existe, claro, aspectos muito positivos na igreja de hoje. Mas me concentrei no negativo, não só por razoes de espaço, mas por causa da missão dada por Paulo a Tito: “Por esta causa te deixei em Creta, para que corrigisse o deficiente, e estabelecesse anciãos em cada cidade, assim como te mandei” e sobre tudo pelo chamado que há sobre a Igreja.

Estou usando a palavra estilo, não só por que é a palavra usada pela pós- modernidade, como foi explicado anteriormente, que deriva da palavra grega stylo, mas por que é a palavra usada por Paulo quando escreve a Timóteo e lhe diz: “se tardo, saiba como se deve conduzir na casa do Deus Vivo, coluna (stylo) e baluarte da verdade” (1Tm 3:15). Então estou usando a palavra estilo não no sentido de moda, ou simples aparência, mas no sentido de coluna.

Esse é o chamado da Igreja, ser coluna (stylo) da verdade. O problema é que se a Igreja em lugar de ser coluna (stylo) da verdade, é coluna (stylo) da cultura predominante, é impossível que o Reino se estabeleça em realidade. Por isso a igreja deve refletir o estilo do Reino e ser livre do cativeiro cultural.

As Parábolas de Mateus 13 foram ditas por Jesus, para que nos fosse dado conhecer os mistérios do Reino, e o reflitamos.

III - O Estilo do Reino:

1. O estilo do Reino é como a boa terra: Diante do pensamento débil e seu correlato da teologia débil, o reino de Deus é semelhante à semente da Palavra que cai em boa terra:

“Mas o que foi semeado em boa terra, este é o que ouve e entende a palavra, e dá fruto; e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” (MT 13:23).

O cativeiro cultural do qual a igreja é vitima, tem feito com que a Bíblia perca sua centralidade. Mas segundo Jesus, a receptividade e a obediência à palavra, são o que determina o tipo de terreno, e o fruto correspondente.

O evangelho será contracultura com poder de transformação unicamente se a Palavra tem status de Verdade. Do contrário, não só a igreja perde seu poder libertador, como termina cativa de uma cultura onde nada é verdade absoluta.

“Cuidem de que ninguém os cative com a vã e enganosa filosofia que segue tradições humanas, e que vai de acordo com os princípios deste mundo e não conforme a Cristo” (Cl 2.8 NVI).

Diante uma sociedade que se derruba a partir da erosão do conceito da verdade, a igreja deve recuperar seu chamado para ser coluna (stylo) da verdade.

2. O estilo do Reino é como uma semente que cresce: Perante uma sociedade infantilizada, o Reino cresce, dá fruto. Quando a igreja reflete o estilo do mundo, e deixa de ser expressão da cultura do Reino, mantém seus membros em infância espiritual.

Segundo Gálatas 4, a infantilidade espiritual faz que, sendo senhor de tudo, o crente viva como escravo. Assim temos um povo de Deus chamado para ser cabeça da realidade, mas que vive como cauda, que brinca nos cultos pondo o diabo a seus pés, mas experimenta a opressão em sua vida familiar, econômica e na sociedade toda. Um povo empobrecido, que brinca às escondidas, fugindo da realidade.

Porém, na cultura do Reino tudo nasce pequeno, mas tudo cresce, amadurece, atinge propósito, cumpre sua missão de transformação. Muito do terreno da igreja está junto do caminho, sem raízes, entre pedras e entre espinhos. Três manifestações de imaturidade.

O problema é que enquanto a igreja permaneça na infância, seguirá em cativeiro cultural:

“Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos em escravidão debaixo dos rudimentos do mundo” (Gl 4:3).

É preciso guiar o povo de Deus a maturidade a partir dos princípios do Reino “Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente” (Ef 4:14).

O crescimento numérico tão espetacular da igreja nos países não desenvolvidos não tem sido acompanhado de um crescimento integral. E outra vez, o deterioro do conceito da verdade é chave, e a restauração da centralidade da Palavra se torna indispensável: “mas seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que o cabeça, isto é, Cristo”.

A distorção do que é bom e do que é mal dentro do povo de Deus e ainda dos pastores é conseqüência dessa imaturidade: “Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal” e isso resulta em uma incapacidade para ser instrumentos de justiça no mundo. Por isso a igreja deve recuperar seu papel de coluna (stylo) da verdade do Reino.

3. O estilo do Reino é como o trigo: Diante da substituição da ética pela cosm-ética, o Senhor não nos manda arrancar aos maus, mas que cresça o trigo. A distinção tem que ser evidente. Deve-se manifestar uma contracultura, a do Reino.

Precisa-se voltar a enfatizar a necessidade de ser um povo diferente, de maneira que haja opção para o mundo.

O cristianismo como uma verdadeira “contracultura”, é viver o evangelho e o cristianismo como a verdade a partir da qual se articulam todas as áreas de nosso viver.

Tudo está permeado pelo Reino, tudo está sujeito a ele. É muito mais do que concordar com um dogma e a algumas práticas. Trata-se de uma cosmovisão diferente, a partir da verdade de Deus. Porque toda transformação vem por meio da renovação do entendimento de um povo que não se conforma com este mundo (Rm 12:2-3).

A igreja coluna (stylo) da verdade do Reino. Porque nossa verdade não é uma verdade entre muitas. É a verdade, Jesus Cristo, a verdade que nos faz livres.

Hoje a igreja não é uma contracultura, mas uma subcultura do mundo, isto é, não algo diferente da cultura pós-moderna imperante, mas a mesma cultura com algumas características próprias de grupo.

Desta forma perdemos a capacidade de salgar e iluminar.

Jesus não constituiu uma comunidade sub cultural dentro do judaísmo de seu tempo, mas uma comunidade contracultural, absolutamente revolucionária, a partir dos mandamentos do Sermão do Monte.

Mas muitas dessas coisas não se ensinam mais na igreja. Como escreveu John Stott, em relação a uma juventude desencantada que busca algo diferente “constantemente o que vêem na igreja não é uma contracultura, mas um conformismo; não uma sociedade que encarna os ideais que eles têm, mas uma outra da antiga sociedade a qual têm renunciado; não vida, mas morte. Hoje atribuiriam à igreja o que Jesus disse de uma igreja no primeiro século: ‘Tens nome de quem vive, e estás morta’”.

4. O estilo do Reino é como a semente de mostarda: Benjamin Barber em seu livro Jihad vs. McWorld argumenta que as duas forças maiores que determinam o futuro da humanidade são as forças da globalização (McWorld) e a da fragmentação (Jihad) e que praticamente a gente deve escolher entre uma e outra.

Não devemos resignar-nos a uma mcdonalização do evangelho, nem assumir um fundamentalismo integrista.

Nós não temos que escolher entre essas duas forças.
Porque Jesus ensinou que há uma terceira força que está operando no mundo: o Reino de Deus que está trabalhando por meio do poder subversivo da semente de mostarda e que faz nova todas as coisas.

A igreja deve ser a coluna (stylo) dessa verdade.

5. O estilo do Reino é como o fermento: Em face a um protestantismo de ficção, devemos recuperar a capacidade transformadora do fermento que teve a Reforma, a capacidade expansiva do fermento que houve no pietismo com seu movimento missionário, a capacidade levedante do protestantismo Pentecostal-carismático.

O resgate dessas três dimensões produziria um verdadeiro avivamento.

Um mover do Espírito, que enche a terra e que produz transformações que afetam as gerações seguintes (“mostrar nos séculos vindouros”).

A mentalidade e a teologia de conquista, tão popular hoje na igreja latino americana, posiciona o cristianismo não como cultura redentora, mas com a pretensão de cultura dominante.

Deixa de ser cristianismo para converter-se em cristandade, deixa de ser fermento para converter-se em massa.

A categoria de conquista é Velho Testamentária.

A categoria do Novo Testamento é a redenção, não a conquista.

Na América Latina devemos aprender de cinco séculos com uma igreja que conquistou mas não redimiu. Devemos ser livres desse cativeiro cultural e ser coluna (stylo) da verdade redentora do evangelho.

6. O estilo do Reino é como um tesouro escondido: Diante do estilo da diversão que só desencanta e some na apatia pós-moderna, o que encontra o tesouro escondido do Reino volta gozoso, vende tudo para comprar o campo.

A igreja deve liberar-se dessa cultura do show e de que tudo deve ser divertido.

Como diria Mamerto Menapace, devemos diferenciar claramente entre estar divertido e estar contente.

Em latim contentus significa conteúdo.

Por exemplo: a água que está em um vaso está contida, contente. Enquanto que se eu a derramo, essa água está di-vertida, sem contenção.

O Reino produz contentamento, não diversão.

7. O estilo do Reino é como una pérola de grande valor: Diante da cópia falsa, ou pseudo-evangelho, manchado de busca de poder humano, político, numérico, os “comerciantes” devemos deixar de buscar essas pérolas falsas, e vender tudo para comprar a pérola do Reino.

Não é o poder político o que transformará a realidade, não é o poder numérico que impactará a cidade, não é o poder econômico que posicionará a igreja como cidade edificada sobre um monte.

É o poder do Reino, o poder de uma igreja que vive diferente, o poder da pregação da verdade eterna, da qual é coluna (stylo), o poder espiritual de uma igreja que vê nas ruas os milagres e sinais que respaldam a palavra, o poder de uma igreja unida que vive com autenticidade o amor que declama.

8. O estilo do Reino é como uma rede: Em face à um mundo fragmentado e hiperindividualista , o reino de Deus é como uma rede.

Esse avivamento liderado pelo Espírito Santo, de alcance mundial, com poder transformador de vidas e estruturas sociais, e que transcende às gerações seguintes, requer de uma igreja unida: que sejam um para que o mundo creia.

A unidade não é um adorno da igreja, mas um requisito, uma coluna (stylo) da verdade e do avivamento.

O Reino de Deus é singular, e sua agência principal, a igreja em cada cidade, também é uma.

Em um mundo de confrontações culturais, a igreja deve apresentar um modelo diferente, do qual ela é exemplo. Essa condição de exemplo ainda está pendente.

Sem essa expressão visível da unidade que Cristo ganhou na cruz, nossa mensagem, perde singularidade, e se converte em uma mensagem a mais.

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