A Igreja

A igreja vive em uma tensão permanente entre estar no mundo e ser do mundo. É a tensão cultural. E lamentavelmente ao longo dos séculos o povo de Deus, desde Abraão até hoje, está nessa luta e muitas vezes cai no que chamo de cativeiro cultural da igreja.

Se esta apresentação tivesse sido feita por um sociólogo e não por um pastor, seguramente não haveria separado este ponto do anterior, mas, assim como ilustramos cada uma das características do estilo de nosso mundo com comentários sobre arte, moda, política, economia, comércio, da mesma maneira, se poderia incluir o elemento igreja, já que lamentavelmente o estilo contemporâneo não apresenta uma contracultura, mas manifesta uma adaptação cultural invejável para qualquer antropólogo cultural.

É claro que existem aspectos positivos na igreja contemporânea. Mas nesse segundo ponto vou marcar os negativos, ou ao menos os riscos que a igreja corre hoje por estar debaixo do cativeiro cultural.

II - O estilo da igreja contemporânea:

1. O estilo da igreja contemporânea é o da teologia débil: O capitalismo com sua nova cosmética suave, se manifesta na igreja, que hoje em dia privilegia a aparência, de estilo suave. Hoje vivemos no tempo da igreja arty (artística), friendly (amigável), slow (devagar).

Um Evangelho sem Reino, e sem Rei.

Um evangelho sem demandas, sem compromissos.

O protestantismo (igrejas protestantes e evangélicas) de hoje, tem duas vertentes ou manifestações, no que diz respeito a essa suavidade, essa brandura. Por um lado, uma parte do povo de Deus, herdeiro do movimento pentecostal-carismático, mantém, por causa disso, a busca da experiência, mas tem perdido a solidez bíblica, privilegia o alcance das pessoas em prol do crescimento numérico, mas despreza o discipulado e o crescimento em qualidade.

Oferece espiritualidade somente do coração, mas não da cabeça.

É mais terapêutica (conforto emocional) que teológica (espiritualidade que afeta a integralmente vida).

Não há didaché, e portanto a gente não sabe o que é bom ou mal. Emociona-se, se entretêm mas não se transforma.O produto que sai é um cristão ligth, com uma vida superficial, fraca e um compromisso débil, sem poder de transformação para a própria vida e muito menos para a sociedade. Por outro lado estão os que, mais ligados à modernidade, assumem a pós-modernidade como desdobramento daquela, e falam de uma teologia débil, em termos de esvaziamento do sobrenatural, sem intervenção divina na história, sem o milagroso e poderoso.

Ambas vertentes tem algo em comum, que é um evangelho sem reino.

2. O estilo da igreja contemporânea é do evangelho mcdonalizado: O McWorld está colonizando a igreja com seus valores: individualismo, marcado por um evangelho de auto-ajuda com sua experiência espiritual intimista, egocêntrica; consumismo, alimentado por uma religiosidade de consumo que busca a auto-satisfação; materialismos com a versão do evangelho da prosperidade e a sedução do dinheiro e do poder do que são vitimas tantos pastores e líderes.

As cadeias de televisão cristãs que retransmitem seus programas em dezenas de países do mundo, são um veículo privilegiado para a transmissão do evangelho cultural norte americano, e que produzem em todo o mundo uma igreja que reflete os valores da cultura pós-moderna imperante do que os valores do Reino, e semeia nos corações dos crentes do mundo não desenvolvido aspirações que é relacionado mais com o American Dream (Sonho Americano) e o critério de progresso norte ocidental, que com o shalom de Deus.

Como alguém falou: a semente do evangelho foi plantada na Palestina, dali viajou para a Europa, dali para os Estados Unidos e dali, junto com a semente, veio o vaso completo. Na America Latina recebemos as piores versões desse evangelho macdonalizado de sabor norte americano, através da mediação de certos ministérios centro e sul americanos, os quais, aos valores do McWorld, agregam sua cota de autoritarismo, ostentação, manipulação, típicos de nossa cultura latino-americana.

3. O estilo da igreja contemporânea é o do novo protestantismo de ficção: Eu encontro um paralelismo entre o desenvolvimento do capitalismo em suas três fases, capitalismo de produção, de consumo e de ficção, com o desenvolvimento do protestantismo desde a revolução industrial até o dia de hoje.

O capitalismo de produção tem como seu correlato um protestantismo pietista, com sua ênfase na razão, no esforço, na renúncia, na ética pessoal.
Esse protestantismo enfatizou a doutrina, o dogma, produziu as denominações, os seminários, às missões modernas.

Depois, a partir do século XX, lhe seguiu um protestantismo pentecostal-carismático, correlato do capitalismo de consumo, e que foi privilegiando a experiência no lugar da razão, que promoveu uma busca do bem estar espiritual, físico e material, em lugar do sacrifício, do esforço e da renúncia.

O eixo da missão passa para as campanhas massivas. As denominações entram em crise e crescem as chamadas igrejas independentes.

E hoje o correlato do capitalismo de ficção é o protestantismo de ficção, compartilhando metodologias e valores: o eixo da missão passa pelos meios de comunicação, promove-se o bem estar emocional, reforça-se o euismo, a brandura ética e de pensamento, a afirmação pessoal e o crescimento numérico eclesial.

Sabendo que toda generalização é injusta, o quadro a seguir pode nos ajudar:

4. O estilo da igreja contemporânea é o do espetáculo e a diversão: Nos tempos de Jesus, haviam feito de sua casa de oração, um mercado. Em nosso tempo temos feito de nossos cultos shows, e de nossos templos sets de televisão. E isso não estaria mal se não fora porque refletimos como igreja esse estilo festeiro.

Somente a modo de ilustração, um dos eventos espirituais mais numerosos e impactantes da história da Argentina, não foi presidido por um pastor, mas por um imitador cômico, e não houve canções de adoração, mas números musicais de artistas de certa fama secular.

Porque um imitador e não um pastor? Porque tudo tem que ser divertido.

Porque artistas seculares e não adoradores? Porque o que se quer é dar um bom show.

Em dimensões menores, sucede a mesma coisa em muitas congregações. Um bom pregador é o que faz muita graça, e ele é apresentado não como pregador, mas como “comunicador dinâmico”. Porque tudo tem que ser divertido. Em muitos países, a gente assiste mais a congressos onde os que ministram são cantores e não pastores. E não importa o que se transmite em termo de conteúdo, porque o que interessa é que the show must go on (o espetáculo precisa continuar). Em reação a isso, surgem novas formas cultuais como as das diferentes igrejas emergentes.

Mas, outra vez, a reação não é produto de uma reflexão bíblico-teológica, mas motivada por uma compreensão e assimilação da pós-modernidade. Assim o templo-set de televisão da mega igreja é substituído pela sepultura da oração, que se converte em outra cenografia de ficção para uma igreja que tem que seguir os mandatos da sociedade pós-moderna, onde tudo é show.

5. O estilo da igreja contemporânea é o do evangelho infantil: O cristão médio de hoje em dia é resistente aos sacrifícios e a espera. É exigente do bem estar a curto prazo.

A geração atual professa o que Giles Lipovetsky chama uma ética indolor . Uma vida que pede satisfações sem entregar nada importante em troca e menos ainda se for adiantado (antes de receber o que pediu).

O altar não é lugar de morte, mas de recompensas. Os cristãos são vitimas dos mesmos males dos não cristãos, como compra compulsiva e a desordem, como alguns dos traços de uma cultura em que o eu infantil é entronizado. O querer-se a si mesmo acima de tudo, amar a criança que temos dentro de cada um. O passar por cima dos erros e reforçar suas conquistas e diverti-los continuamente.

A super ênfase na cura interior como uma volta permanente à infância. A postergação indefinida nos jovens para assumir compromissos afetivos, como parte de sua evidente resistência a ser adultos.

A escassez de compromisso pela transformação social. As sérias dificuldades nos adultos em assumir responsabilidade. O pensamento mágico que espera que Deus faça o que o crente deve fazer. O negar-se a tomar conta de sua própria vida.

O turismo congregacional, que faz com que os crentes vivam trocando constantemente de igreja, segundo o show ou o serviço que lhe ofereçam, evitando, dessa forma ser discipulados.

A liderança pastoral com fantasias infantis de ser “o” homem de Deus para a cidade. São algumas das características de uma igreja que reflete uma cultura infantil.

6. O estilo da igreja contemporânea é o do evangelho falsificado: A igreja não está isenta da influência do mundo da falsificação, da cópia, da franquia.

Há um pseudo-evangelho que não requer que as pessoas mudem, ainda que Jesus Cristo disse que temos que nos converter. Não requer compromisso, basta emocionar-se. Eu posso continuar sendo o centro de minha vida, poso continuar mandando na minha vida. Isso é muito mais barato do que o que Jesus pretende: “o que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz a cada dia e siga-me”.

Negar-me a mim mesmo, crucificar meu egocentrismo a cada dia e segui-lo? A cópia é mais econômica. E como é um evangelho sem reino, confunde-se crescimento numérico com extensão do Reino. O problema com essa visão é que nos últimos 20 anos que quase todas as congregações têm crescido em cada cidade, mas o estado destas cidades é significativamente pior que 20 anos atrás.

Isso significa que ao fazer uma análise do estado espiritual, moral, econômico, social, educativo da cidade, não vemos que o Reino de Deus tenha se estabelecido apesar do crescimento numérico.

Em prol do crescimento numérico da igreja e a partir de uma visão pragmática da realidade, copiam-se receitas do que funciona em outras latitudes. E o fenômeno próprio da globalização das franquias, se repete hoje na igreja.

E afirma-se rotundamente, “A visão não se adapta, mas se adota”.

Como o objetivo da globalização é a homologação pela via da homogeneização, todos têm que trabalhar para a visão do pastor, e ao cabo de alguns anos, se a visão teve êxito, o único realizado, prosperado e satisfeito é o pastor, enquanto isso há um povo empobrecido, sem desatar seu potencial, sem concretizar seu propósito.

Claro que para que se cumpra a visão é necessário a super-visão. E em um contexto como o latino americano isso significa autoritarismo, controle, manipulação.

Em algumas congregações há um tipo de Grande Irmão, com uma supervisão própria das seitas.

Porque a visão justifica tudo.

Ainda que passar por cima das visões pré-existentes, isto é, as visões do Reino, como por exemplo: que sejam um para que o mundo creia. “A unidade não importa, porque não posso negociar a visão que Deus me deu.”

7. O estilo da igreja contemporânea é o do hiperindividualismo: O indivíduo é o centro, ainda que não tenha uma identidade definida. No modelo de múltiplos eus, equivale a ter múltiplas identidades cristãs, que é o mesmo que dizer a falta de identidade cristã.

Os cristãos pós-modernos são como um Lego. Ótimo para as alianças voláteis e o sincretismo.

Na igreja de hoje também quem manda é o “cliente”.

Os programas são resultado de estudo de mercado, como se o Evangelho do Reino de Deus fora um produto para ser vendido, e para ser adaptado para que possa ser aceito pela massa.

Qualquer coisa que ofenda aos consumidores desse evangelho, deve ser suprimido.

Algumas igrejas, para dar satisfação ao consumidor, procuram não falar de pecado, nem de santificação, nem de negação, mas enfatizam os benefícios temporais de ser cristão, pondo o consumidor no centro, no lugar de Deus.

A mensagem está mais centrada em aliviar o stress que no seguir a pessoa de Cristo.

O movimento “Sensíveis aos que Buscam” que envolve um grande numero de mega igrejas nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, tem ensinado que se as igrejas quiserem crescer devem se transformar em igrejas sensíveis e adequadas ao perfil e aos gostos dos que estão em busca de uma igreja.

Isso tem alguns aspectos positivos, mas também significa pregar sobre o amor e não sobre o pecado; ensinar sobre o pensamento positivo e a auto-ajuda; investir em conforto em instalações de entretenimento; ser mais tolerantes com o comportamento dos membros, substituir a adoração comunitária pelo canto de artistas.

Para muitos pastores a meta não é ser parte de um avivamento, mas ser famosos mediáticos.

Não buscam transformar a cultura, mas serem aceitos por ela.

Não se busca ser profetas, mas grandes comunicadores.

8. O estilo da igreja contemporânea é o da substituição da ética pela cosm-ética: O deus do cristão pós-moderno não pode ser muito exigente. Posto que o indivíduo pós-moderno obedece a lógicas múltiplas, sua postura religiosa também tem lógica múltipla.

Como é um evangelho sem Reino, não há normas absolutas, tudo é relativo.

Assim temos, só para mencionar um exemplo, milhares de pastores presos na pornografia via internet, graças ao que os americanos chamam de o Triplo A:

anonimity (anonimato), Access (acesso fácil), affordability (preço baixo).

A palavra pornografia, deriva de perné (escravo). E porné era a forma de chamar as prostitutas e aos escravos dos quais se podia aproveitar sexualmente.

O fato é que temos que ir contra um mundo governado por um espírito de imoralidade, com uma igreja liderada em boa parte por escravos desse mesmo espírito.

O estilo da igreja contemporânea salmodia uma felicidade intimista e materialista e a satisfação dos desejos imediatos, com um cristianismo do pós-dever (não há mais que se responsabilizar por nada) que privilegia o bem estar em detrimento do bem.

Uma fé apartada do dever austero, cosmetizada de “bênção”.

(…)